quinta-feira, 5 de Novembro de 2009


A história repete-se de novo
Parecendo não ter começo nem fim
Pudera eu recomeçar tudo num sopro
Desmontando o destino traçado em mim.

Interrogo-me se o erro será meu
Ou deste esquivo mundo que me alimentou.
Talvez filha de uma má sorte
Talvez mãe de um dom que Deus guardou.

Sou muito pouco daquilo que um dia sonhei
Embalada por escolhas que de certo, não fiz.
Mas meus olhos tristes não perdem a esperança
Continuo a sonhar, um dia serei feliz.

sábado, 31 de Outubro de 2009

A dor é uma montanha de crueldade que não conseguimos subir. A dor é ser-mos atropelados muito devagarinho...pimba...crac!Lá se vai uma costela. A espinha dói...os pulmões estão secos. É um mastigar revoltante nas entranhas. Tentamos levantar-nos. Mas caímos. A dor é um dilúvio. É uma série de jogadas desesperadas absolutamente inuteis. A dor é encontrar uma pessoa. E perdê-la. E encontrá-la outra vez. Para perdê-la novamente.

quinta-feira, 29 de Outubro de 2009

O Homem acha que sabe. Mas não sabe nada. O Homem conta o tempo, inunda os céus, cura doenças. Cria. E destrói. Nasce. E aniquila-se. Manda. E desmanda. Planta árvores. E desvasta florestas.
O Homem inova e descobre a cada minuto, julgando realmente que sabe, mas não sabe nada.
Somos afinal homens cegos. Historicamente preparados para acreditar apenas naquilo que vemos. "Ver para crer", qual S.Tomé. Bravos aqueles que se propõe acreditar no que há para além da vista. Bravos aqueles que coabitam na realidade ignorando o quanto esta é inexplicável.
Perdoem-me o que fica por dizer. Mas a minha fé não relata, acredita.

sábado, 1 de Novembro de 2008

Não é ódio. Não é indiferença. Muito menos seria amor. Não é um possível sentimento alguma vez experimentado por um ser humano ou descrito por um poeta. O mais delirante dos poetas.
É então o quê afinal? Que raio me prende a ti e a estes pedaços de vida por ti pintados. Tão incompletos. Tão vazios de presença.
São 19 anos bem contados. Cada um deles com 19 histórias em que te permiti assumir o papel principal. Irónico não? A vida seria supostamente minha. Mas foi a ti que coube o papel principal. Transformei-te na razão de tudo. A marca pesada da tua ausência foi afinal a razão de tudo.
Agora rever o passado torna-se cruel. A força que sustentaria a grande solução para aquele grande problema simplesmente não emergia em mim. Nunca. Tudo porque a cada problema que chegava eu estava demasiado ocupada a culpar-te por ele, e pelo anterior e pelo anterior…por uma sucessão deles que afinal nunca terminariam. O meu subconsciente deixa adivinhar que confessar isto a alguém é quase que intitular-me louca. Durante toda a minha vida culpei desesperadamente um homem por todos os meus males menores e maiores, quando o único mal que este me fez foi abandonar-me antes mesmo que eu aprendesse a chamá-lo de pai. Não é decerto coisa pouca. Não para mim, ou para todos aqueles que viveram o mesmo que eu. Aprendi já a recusar-me discutir o assunto com quem não o viveu, porque a palavra perdão tem me chegado demasiadas vezes, não fazendo no entanto qualquer sentido.
A psicologia tende a explicar este fenómeno. Os problemas existenciais que surgem num indivíduo humano vitima de abandono durante a infância. Serão explicáveis até certo ponto. Contornáveis? Não creio. Há pouco tempo atrás, tardiamente é certo, percebi finalmente que a mágoa que deixaste em mim, sempre tão presente, atingia somente uma pessoa. Eu própria. Mais ninguém. Era como se no fundo, trouxesse comigo uma esperança feia de que a minha dor pudesse chegar até ti em forma de remorso. Nunca chegou. E a minha lucidez recentemente encontrada deixou-me ver que nunca chegará.
Há 13 longos anos que não te vejo, mas sabemos que o encontro está iminente. E na verdade quero tanto encontrar-te como jamais voltar a ver-te. Como sempre, chega com a tua lembrança uma mistura confusa de sentimentos e sensações. Tive toda a minha vida para escolher as palavras mais duras que te diria. Imaginei um sem numero de vezes o grande encontro e agora que sei, está ele tão perto…o que é que eu faço? O que é que eu digo?

sábado, 2 de Agosto de 2008

Colecção de Mulheres


Porque é que aquando do teu sorriso
Trazes o mundo sorrindo contigo?
Tornas o bom no maravilhoso
Fazes do mau uma nódoa num vestido.
Solitário, carregas o tal poder
O divino poder de me fazer esquecer o Tudo.
Respirarem meus poros o mesmo ar que os teus
E deixo de fazer parte deste insofrido mundo.
Tu entre as minhas paredes. Qual solidão?
A solidão é já risos de champanhe e alegria
Para que fosses meu assim toda a existência
Quantos tresloucados sacrifícios eu faria.
Mas a minha enfermidade ainda reconhece
Que não me queres deste modo como me entreguei.
Sou a fêmea enamorada, mas consciente
Que a ti não chegarão os delírios que já provei.
És-me o ideal realizado, o sonho exorbitante
E eu pra ti sou apenas mais um amor sem freio
Nem o ultimo nem o primeiro
Sou daqueles curtos que vão ficando pelo meio.

E um dia quando mais não me quiseres
Serei mais uma na tua colecção de mulheres
Para nem mais te recordares do meu nome.

quarta-feira, 30 de Julho de 2008


Que tristeza me invade
Quando meus olhos vêem os teus
Perto de outros olhos quaisquer
Senão os meus.

Que tristeza me invade,
Qual sumiço na alma
Se me foge a tua presença
Foge-me a minha calma.

Então escrevo, solitária
Contando aos abutres a cegueira do amor
Enquanto peço clemência ao pensamento
Para que ponha fim a este meu temor.

Contudo as palavras são transparentes
Não cobrem as sombras do sofrimento
E regressa a tal tristeza que me invade
Gelando e quebrando-me por dentro.

Agora sei que não sou alguém
Sou apenas a metade daquilo que tu és.
E não me importo, pois se não o fosse
Imploraria, para sê-lo aos teus pés.

E esta tristeza que me invade
Pode agora derrotar o que há em mim
Mas quando voltar aos teus braços, amor
Não mais me lembrarei que estive assim.

domingo, 27 de Julho de 2008

A Florbela Espanca:


Ser Poeta é ser mágico como Florbela
É ser envolvente e penetrante como Florbela.
Oh musa da Poesia
Ser Poeta é seres capaz de ordenar
Que as tuas palavras venham sussurrar aos meus ouvidos
Para me seduzir com a loucura do amor.
Ser Poeta é transformar histórias tuas, meros sonhos talvez
Nos poemas mais lindos que já li.
Ser Poeta é já não pertencer ao mundo terreno,
Este tão injusto e cruel,
E teus escritos serem lidos e relidos vezes sem conta
Por todos os súbditos do amor
Como esta humilde que te admira.
Ser Poeta é ter o teu poder
Em que cada verso, cada frase, cada palavra
Tudo te saiu do canto mais profundo da alma.
Ser Poeta aconteceu quando a tua vida, e seus tormentos quem sabe,
Te deram o dom da magia.
Fazes magia com as palavras…
Porque sem querer és Poeta,
E tuas palavras vão descrevendo meus sentimentos.
E às vezes, por seres Poeta, na tua triste história
Vejo reflectida a minha própria história.


Tributo àquela que mesmo chamada de louca, é na minha opinião a mais grandiosa poeta portuguesa. Escrito a Maio de 2006. Publicado a Junho de 2008 no livro "Poesia magia, poesia na alma" graças ao empenho de Ana Carvalho ( Querida professora e amiga, que grande presente dar a conhecer o meu talento!).

quinta-feira, 24 de Julho de 2008

Harpa mentirosa

Tocavas-me anjo
E tornava-se o meu corpo uma jangada
Perdido onde jamais outro corpo alcança
Perdido onde não há mais tempo, não há mais nada.

Teus dedos, qual lirios queimados pelo sol
Erguiam-se do nada findando em mim
Roçavam os meus poros feitos de mel
Lustravam a minha pele decorada de marfim.

Juntos, faziamos a eternidade numa só junção
Vinhas louco sossegar a minha carne
Levavas paciente a dureza do meu coração.

Sem morada nem graça, destacado entre os demais
Eras afinal homem levado, qual harpa mentirosa
Um dia chamei-te de anjo, não chamarei mais.

sexta-feira, 18 de Julho de 2008

Queres ser o meu caminho?
Então sorri e abre-me os braços!
Permite-me pisar o teu chão.
Permite-te contar os meus passos.

Serei mais do que pele suja e desnudada
Nesse alcatrão que um velho sábio plantou
Serei alma plena e oferecida
Ao caminho que um qualquer Deus me mandou!

Ao ver-te assim tão longo, qual mar coberto
Vejo-me de repente uma flor rara
Crescendo no mais ínfimo deserto!
Queima-me o sol a minha pele de louça
Não importa amor, findo o caminho serei tua
Vestindo pele de velha ou pele de moça!


Para vós. O meu primeiro soneto.

segunda-feira, 14 de Julho de 2008

Porque a dor chegou,
E fica,
E insiste.
Porque tu vieste,
Tocaste-me
E jamais partiste.
Porque o inferno não é fogo
Mas sim a falta dos teus braços.
Porque há muito não te vejo
Mas ainda sinto teus passos.
Porque choro arrebatada, escondida
Entre a solidão e a esperança.
Porque preciso ser tua de novo
Ó homem com sorriso de criança.

quarta-feira, 9 de Julho de 2008

"Porque é que as pessoas casam?"


No passado domingo, o aborrecimento tomou conta da minha noite. Entre lençóis resolvi então entregar-me à companhia do eterno aparelho que insiste em fazer-nos escravos. Confesso que nos últimos anos sou cada vez menos adepta de televisão que a par do que se passa no mundo nos traz também programas de qualidade extremamente duvidosa sendo que estes últimos acabam por se apoderar de grande parte do tempo de antena.
Mas a noite prometia ser longa e o sono não chegava. Apoderei-me do comando. Num zapping rápido cheguei à Tvi. Não é um canal que me atraia minimamente. Mas passava aquela hora uma série portuguesa cujo nome agora me falha, e que é neste momento na minha opinião, a “pérola” do canal. Retrata casos prováveis da sociedade portuguesa apresentando uma nova historia todos os domingos.
Descobri eu então Helena, uma personagem envolvida num enredo digno de me prender a atenção. Uma mulher atraiçoada pela vida que ambiciona uma vida de rainha a qualquer custo. No fundo, senti-me de alguma forma identificada com ela. Imaginem-me só! A torcer e a sofrer pela vilã o episódio inteiro! É claro que a coisa não acabou muito bem pró lado dela (porque é que os vilões acabam sempre mal?). No entanto não me esquecerei tão cedo de Helena. No meio do seu trajecto implacável transmitiu-me uma ideia que não me saiu da cabeça até agora. Numa conversa com outra personagem perguntou-lhe ela porque é que as pessoas casam. “ Porque se amam”, disse ele. E ela respondeu-lhe – “ Não. Se se amam basta viverem juntos. Casam-se porque precisam de uma prova. Porque hoje já nada se faz sem provas. A palavra de alguém já não basta.”
E fiquei completamente presa a esta ideia. Para uns talvez não passe de um pensamento banal. Mas para mim faz todo o sentido. Um sentido realmente gigantesco!
Se amo alguém, se tenho a certeza que sou amada, então caso porquê? Por devoção a Deus, por tradição? No passado sim, agora isso não existe mais. Para “ mostrar” a virgindade à família? Então isso é preferível nem falar!
Até à 40, 50 anos atrás o casamento era uma prova. Uma prova de que a mulher seria submissa ao marido e se comprometeria a lavar as suas cuecas toda a vida. Hoje os tempos são outros. Não nos casamos obviamente para nos comprometer-mos a lavar cuecas (atitude inteligente!), mas sim para fazer o nosso parceiro comprometer-se a não trocar as nossas cuecas por outras alheias. Pelo menos não durante um razoável espaço de tempo. Uns são bem sucedidos, outros nem por isso.
Eu como condição de mulher a que me sujeito, sonho obviamente com o meu casamento. Ou seja, sim. Um dia também quero que o Tal me dê a Tal provazinha.
Mas não é de certa forma triste que nós humanos com um leque de sentimentos e sensações tão vasto vivamos apenas de provas? Reparem que a palavra de alguém já não vale nada. Mas literalmente nada. Bem, isso talvez até perceba. Já que o vida nos prova a cada dia o quão perigoso é confiar no mais insignificante ser vivo. Mas e o amor? Teremos nós o direito de pedir para que nos provem amor?

segunda-feira, 7 de Julho de 2008

Os álbuns de fotografias espalhados ao longo da cama deixavam antever uma tarde plena de histórias para contar sobre as travessuras e conquistas desportivas de um menino que agora homem, estava ali pronto a mostrar-se.
Ela, olhava com muita atenção cada fotografia, imaginando-se mesmo a viver com ele todas as historias contadas, enquanto ia decorando cada pormenor daquele quarto onde se imaginara tantas vezes.
Tudo ali lhe parecia já muito familiar, embora nunca tivesse lá estado. Aquele cheiro, aqueles objectos e o corpo dele mesmo ali ao lado dela faziam-na sentir em casa. Não em sua própria casa onde raramente tinha uma real paz, mas numa casa só sua, decorada apenas de luz e sorrisos intermináveis.
Por fim, o último álbum fechou-se. Dando lugar a um novo álbum, desta vez apenas preenchido de sensações. Começado naquela mesma tarde por aqueles corpos que a cada segundo se aproximavam mais quase já prevendo que seriam um só.
A cama, já vazia de fotografias e recordações, suportava apenas aqueles dois corpos. Ele desejoso de toca-la. Ela desejosa de ser tocada, mas com medo. Não medo do conforto que sabia sentir a cada toque dele. Medo do compromisso, medo do lançar os dados e perder.
Entre gargalhadas e novas histórias que os objectos presentes iam lembrando, chegavam abraços cada vez mais apertados e toques plenos de carinho. E por fim um beijo, e outro, e outro. Todos eles envolvidos na vontade de que o próximo acontecesse ainda melhor. Todos eles incentivados pela ausência de olhares indiscretos, ali, entre quatro paredes.
Ela, colhia no final de cada beijo o receio do que o próximo lhe pudesse trazer. Um tal desejo já esperado. Uma tal vontade de que acontecesse ali o que estava errado acontecer segundo os padrões que toda a vida adoptara. Ele, apertava-a nos braços quase como se soubesse apertar também a memória dela. Quase que a esvaziava, que lhe arrancava regras e desconfianças deixando espaço para apenas aquela tarde que teria de ser lembrada por muito tempo.
As bocas dos dois, incendiadas, uniam-se cada vez mais apressadas como se a sua junção aliviasse o que nascia naquele momento em cada um daqueles corpos.
A respiração tornara-se ofegante. A língua de cada um desejava já mais do que a boca do outro e depressa se unia aos dentes morrendo juntos no pescoço. Marcando. Fazendo doer e ao mesmo tempo gemer de prazer.
A cada toque, ela quase tinha vontade de lhe pedir por mais, mesmo sabendo que ele não pararia. Aquelas mãos que nunca antes a haviam possuído pareciam trazer nelas a perfeição. Tocavam o centímetro de pele certo, no gemido certo provocando nela um êxtase de desejo e loucura.
Por momentos aquele corpo de mulher tentava desviar-se da vontade que a consumia e recusar aquele corpo que estava ali pronto a dar-se a ela. Não foi capaz. Queria-o naquele momento com todas as suas forças. Amou-o naquele momento como jamais pensara ama-lo.
A roupa ia caindo pelo chão, desnudando aqueles dois corpos suados, preparando-os para a entrega que viria.
Ele acariciava o corpo dela fazendo-a sentir tocada por um anjo. A sua mão leve como que transportava para ela o amor que o corpo dele trazia. Sim, mais do que um desejo interminável trazia amor. Um terno e desprendido amor. Sussurrando-o por fim ao ouvido dela quando pareciam já perdidos de desejo. Abraçados, rolavam por aquela cama como loucos. Beijando, mordendo, tocando…endoideciam-se mutuamente.
Por fim uniram-se num acto, aqueles dois corpos já tão despidos de roupa e preconceito. Encaixados ali, formando como que o desenho de um puzzle interminável, foram um só. Vazios de promessas e compromissos, liquidavam apenas a fome que os consumia.
Amaram-se como deuses tudo suprindo á sua volta. Qual mundo? Qual civilização? Tecto, paredes, medo, insegurança, medo, tempo, convenções. Tudo desaparecera ao longo dos minutos em que se uniam os dois. Eram apenas dois pedaços de carne e duas almas que se queriam e se completaram. Eram um vale e uma montanha que se erguiam juntos na mais pura essência de amar. Eram desejar, eram tremer. Eram apenas amar sem sofrer.



B.F. Tu sabes.



domingo, 6 de Julho de 2008



























Quando os novos amores construidos esmorecerem, como todos os outros conquistados, estarei de novo sozinha. Para trás as lágrimas, pela frente o lago do meu futuro, tao ténue e inseguro, sobre os meus pés a tragédia, quais vinhas pisadas.

sexta-feira, 4 de Julho de 2008

As Linhas da Tragédia

– Está escrito na tua mão. O teu destino é curto. Será breve o dia da tua morte.
Fez-se silêncio. Olhei-a em busca de um sorriso desmentindo.
- Estou a brincar. A tua vida será feliz. Não encontro nada.
Era a expressão trágica de uma mulher que lê o futuro nas mãos. A expressão tirânica de um ser que sabe o seu próprio fado. E não tem medo.
Saí a correr. Dentro da cabeça meia tonta martelavam-me as palavras: " será breve o dia da tua morte".
Como pode a minha mão ser uma página do destino? Por que é que este escreveu tão pouco em mim? Eu sou feliz. Tenho dois filhos. Apenas trinta e dois anos. O amor compareceu na minha vida tão cedo e tão completamente. Tenho casa, amigos, um bom emprego, uma bonita família. Agora descubro-me morto em breve… Estarei doido? Devo acreditar numa mulher maltrapilha que me pára na rua, pega nas minhas mãos e sem hesitar me arremessa num calvário?
Olho os hieróglifos que me desenhou nas mãos. Nada vejo. Apenas sulcos, como que cicatrizes das vidas que disse ela eu ter tido.
Perto das oito horas chego a casa. Os pequenos correm para me abraçar. Um beijo da esposa e o jantar está na mesa.
Contam-me o dia. Mas escuto pouco. Todas as frases ditas acabavam na voz da cigana: “será breve o dia da tua morte”.
A esposa estranha-me. Interroga-me sobre o motivo da distância. Eu disfarço-me em proximidades.
Olho para as mãos dos meus filhos. Estão lá as malditas linhas. O que estará escrito nelas? O que terá o destino traçado para estas crianças?
Resolvi sair um pouco de casa: - Vou andar por aí. Não tenho sono. - Apenas palavras para satisfazer a esposa inquieta.
Tenho de encontrar a cigana. Ela vai reler as minhas mãos e dizer que errou. Desacostumada com o mistério, pode ter-se enganado. De certo vai agora ler vida longa em mim.
Não tenho coragem para a morte. Na verdade nunca me fez pensar. Próximos de mim já morreram os avós e alguns conhecidos. Sempre olhei para eles com piedade. Não respiram, recebem terra sobre o corpo e desaparecem.
Falta-me a coragem para enfrentar a arma que o estar vivo nos aponta. O irremediável que puxará o gatilho e nos fará tombar qual árvore imprecisa. Saber, agora é o que magoa.
Vou encontrar a cigana e desfazer o dito. Retornar as suas palavras à garganta. Para quê viver sabendo que logo morro?
Continuo a tentar deslindar as minhas mãos. Analfabeto. Ela ainda deve estar em Lisboa. Mas os ciganos são errantes, não posso perder tempo.
Volto tarde. A esposa que me esperava na sala manifesta a sua preocupação: - A cidade está violenta! Andar por aí é perigoso…. O que aconteceu?
Evasivamente respondo: – Insónias. Mas não fui longe. Vamos dormir.
Detenho-a nos meus braços para silencia-la. Fazemos amor. Ela faz amor. Eu sinto-me como que mecânico.
Um rasgo de culpa atravessa os meus movimentos. Quase não consigo. Termino. Beijo-lhe a testa e fecho os olhos. - Até amanha.
Nas mãos, as malditas linhas anunciando a minha brevidade. Dormia a mulher. Dormiam os filhos. Em mim apenas dormiam os gritos dos escritos lidos pela cigana.
No dia seguinte falto ao trabalho: - Estou doente, não posso ir. Amanhã estarei melhor.
O patrão entenderá, sempre fui exemplar.
Passo o dia atrás da cigana. Percorro cada canto, cada miséria da cidade. Chegado ao local onde me soube morto, abordo um velho: - Não viu aqui ciganos por estes dias?
Baixando a cabeça respondeu-me: – Não senhor. Eles sempre acampam aqui, mas faz mais de um ano que não aparecem.
Revestido de toda a certeza que há perguntei-lhe se tinha a certeza. Não mais me respondeu.
Passo o fim do dia naquele lugar observando cada pedestre. Nenhum é a cigana.
Volto para casa, fingindo melhoras.
Sentado na soleira da porta tento lembrar-me do que eu era antes de ontem. Do que dizia aos filhos, do que a esposa gostava de ouvir. Rememoro os gestos, o sentar na poltrona, o interesse no dia dos pequenos, as suas tarefas, as suas travessuras, o lugar à mesa, os olhares maliciosos para a esposa. Faço tudo dentro do estabelecido disfarçando os martelos que continuam a ressoar em mim.
Falece mais uma noite e falto ao trabalho novamente. Preocupam-se: - É apenas uma gripe forte. Vou ao médico hoje.
Pedem-me que me cuide. Quase me foge a pergunta da boca: como? Se uma mulher previu a minha morte e eu não tenho outro descanso se não encontrá-la.
Quase que me revelo, quase lhes digo que só retorno ao trabalho depois que ela desfizer o dito. Antes não. Mas acabo por mentir é claro: - Se estiver melhor, regresso amanhã. - Eles compreendem, sempre fui exemplar.
Minto à esposa também – Hoje não me procures, estarei em reunião o dia todo.
Durante a manhã percorro o centro de Lisboa. Vejo todo tipo de gente. Nas mãos de todos, linhas semelhantes às que tenho. O que revelarão aquelas palmas? Por certo, não o mesmo infortúnio que as minhas carregam.
Não digo que não haja vidas mais trágicas que a minha. Sofrerão veramente mais do que eu muitas destas pessoas. Mas saberão o que lhes aguarda? Acreditariam como eu naquela mulher? Poderia ela impingir-lhes este fracasso de vida curta como fez em mim?
Finda a segunda tarde depois que me soube morto. Entro num bar. Tomo um café apenas. O estômago já não suportava uma refeição.
O homem que servia observa-me como se me conhecesse.
- O senhor esteve aqui ontem á procura de uma cigana não foi?
- Sim. - Antes que a boca se apresentasse, os olhos perguntaram: - Você viu-a?
- Anda por aqui uma a ler as mãos. Seria aquela ali parada na porta? – Perguntou apontando.
Viro-me para trás. Estática, submersa em sabedorias ela olha-me entre a piedade e a soberba. - Procura-me?
- Sim. Quero que desfaça o que fez comigo. Nada daquilo que disse está escrito aqui. Vamos, desfaça o presságio! Diga-me que serei longo na vida, que terei netos, bisnetos, que ultrapassarei a barreira da idade humana, diga-me que minha vida não tem fim! Diga-me que é isso que lê nestas linhas que carrego!
Respondeu-me, enterrada num sorriso sombrio: – Eu minto se é o que queres. A tua vida será longa. Envolta em felicidade. A morte não atingirá os teus dias, muito menos as tuas noites. Irás dormir tranquilo e acordar disposto ao trabalho por muitos e muitos anos. – Ajustando o lenço á cabeça, rematou – Pronto. Menti. Estás contente?
- Não. – Olhei-a nos olhos – Fala-me a verdade.
- O teu destino é curto. Será breve o dia da tua morte. É isto que trazes nas linhas. Não há escapatória. Breve, muito breve não viverás mais.
Vendo a revolta apoderar-se de novo de mim, perguntei – Mas como sabes? Como podes sentenciar-me desta forma? Eu fiz-te algo? Magoei algum dos teus? Como me escolhes ao acaso e me condenas à morte?
- O meu caminho é cruzado por aqueles cujo destino escreveu com as letras originais da morte. – Caminhou até à porta – Olha este rebanho que atravessa a cidade. Sabes quantos iguais a ti? Um ou dois. Todo o resto é cópia, rascunho. Esboço do texto real que tu carregas. O destino escreveu em ti o texto final. Sem erros ou borrões. E eu estou aqui para lê-lo. – As lágrimas brotavam – me nos olhos – Poderei mentir, enganar a tua consciência, incorporar nos teus dias a esperança de uma vida longa. No entanto, o que contemplas nas mãos, quanta perfeição…
- Mas então porque nunca soube eu disto? Vivo indicando à minha vida o metódico, o correcto. Não me insinuo jamais entre desvios e escuridões. Por que fui eu escolhido?
- Eu não sei. Sei que será breve o dia de tua morte. É o que tu carregas.
Saio em desespero. Ainda ouço o grito: - Podes correr, nada afectará a verdade. Será breve o dia da tua morte.
Como caí eu nesta teia? Movido por uma curiosidade estúpida, apenas me limitei a estender-lhe a mão.
E ecoavam os martelos, agora em dobro. Duas vezes a vi, e duas vezes me previu ela um curto destino.
Volto para casa caminhando. Na minha cabeça, apenas os malditos martelos. Quase não ouço a esposa. - Onde está o carro? Foste roubado?
“Roubaram-me sim, a minha ignorância”, foi o quase grito que dei. Digo-lhe uma nova mentira – Não te preocupes. O carro ficou na empresa, vim de boleia com um colega.
- Vem jantar. Já é tarde. As crianças já dormem.
Invisto-me de esforço e engulo a comida. Tudo o resto é perfurado por um silêncio de velório, o meu velório. Derrepente assalta-me a ideia de como vou morrer. Ataque do coração? Atropelado? Assassinado? Ou acabo por desfalecer na simplicidade do sono? Então não durmo. Limito-me a vaguear pelos corredores da casa. Todos parecem distantes com o seu ressonar.
Vou ao quarto das crianças, está na hora do beijo de boa noite. Quase sorrio observando os meus filhos tão seguros, envoltos naquela felicidade familiar. Mas logo me vejo carregando nas mãos os escritos do destino. Sinto-me como se tivesse traído os meus filhos. Nasceram, aprenderam em mim um pai. E agora será breve o dia da minha morte. O que será destas crianças? São rascunhos como disse a cigana, ou deixar-lhes-ei também o legado de morrer em breve? Choro, escondendo os soluços para que não ouçam. Todo eu sou medo. O que faço diante desta peste que me dizima a esperança?
A esposa já acordada põe a mão sobre o meu ombro: - O que te tem afligido estes dias?
Respondo, fugindo com as palavras e com o corpo – Nada. É apenas cansaço. Precisamos de férias. Vai dormir, amanhã o dia será longo.
E afasto de mim aquela que mais me ama. Quanto deste amor resistirá quando se souber viúva?
Sinto-me realmente um idiota por acreditar na cigana. Em qualquer outro, esta maldita premonição provocaria risos, chacotas de despreocupação. A razão pede-me que a esqueça, que não faça caso do presságio. Mas no fundo eu já sei. Morrerei em breve. Eu sei.
Mas trinta e dois anos… Filhos, esposa, amigos… como deixar-me abandonar o que construí? O que até há dias sustentava a minha vida sem sobressaltos… Talvez o destino tenha realmente feito das minhas mãos um livro, um maldito livro. É o que tenho. Mas não vou sucumbir a isso. Eu sou preciso aqui! E os meus pequenos…coitados. Eu não vou morrer. Vou reescrever estas linhas, desdizer estes traços. Livrar de mim este prognóstico macabro. Não sou nem quero ser homem apto a carregar este livro. Não quero aprender a ler o que me escreveram os demónios, o tal Deus, ou outras invisibilidades mórbidas, travestidas em destino.
Tranco-me na casa de banho e debruço-me sobre o lavatório. Esfrego as mãos até doer, até ter as palmas lisas. Vejo o sangue brotar e as linhas continuam lá, parecendo agora rios minúsculos. Vejo desaguar em sangue os escritos do destino.
Saio para a rua e continuo a esfregar as palmas, até arrancar a pele, até ver somente a carne. Mas não adianta, as malditas letras vem de dentro, estão enraizadas até aos ossos. Arrancar a pele é apenas paliar o inevitável. Mas não admito a mim mesmo encher o pensamento de aceitações. Nunca, jamais esteve em mim um perdedor. É manhã do terceiro dia e ainda estou vivo. Talvez ainda tenha tempo para rescrever o meu destino.
Continuo a faltar ao trabalho: - A gripe piorou. Atingiu o meu filho.
Peço mais um dia. Dizem-me que tudo bem. Sempre fui exemplar. Não será agora na necessidade que me faltarão.
E eu tenho já a solução. Vou apagar em mim os escritos do destino. Viverei longos anos. E aquela cigana, crivada de enganos, verá que afinal posso enganar o destino. Todos se admirarão pela minha coragem, pelo amor a esta vida amiga de perfeição que levo.
Volto para casa ao meio-dia, com o necessário para erradicar o que carrego em mim. A casa está vazia. As crianças na escola, a mulher no trabalho. Tudo vazio. A garagem, a casa, a vida, o futuro. Tudo vazio para que eu possa preencher de felicidade, depois de apagar o que o destino escreveu.
Na cabeça os martelos continuam a soar: será breve o dia da tua morte. Mas o barulho da serra eléctrica que acabo de ligar atenuará imediatamente estes martelos infernais. Estico os braços em direcção a lâmina, na altura dos cotovelos. Primeiro o esquerdo, depois o direito. Estão mortas as linhas que me diziam morto. Nunca mais soarão os martelos. Nunca mais cigana alguma me lerá as mãos.
Á CULTURA CIGANA QUE MUITO AMO E RESPEITO.

segunda-feira, 9 de Junho de 2008


Jamais esquecerei a dor. Jamais esquecerei o sufoco de te ver aí, envolvido nessa tua distância, qual redoma de betão. Foges com o olhar, como se levasses contigo todas as promessas feitas e esquecidas. Puderas até acreditar que levas, mas não levas não. Jamais levarás. Pudera eu fazer com que as levasses. Essas malditas promessas escondidas por entre mentiras. Pudera eu fazer com que te odiasse, com que morresses dentro do meu ser como morro agora no branco dos teus olhos.
Odiar-te? Seria o consolo da minha dor. Mas não sou capaz. Juro que jamais te odiarei como um dia jurei que jamais te amaria. Queira Deus esteja de novo enganada. Queira Deus enganar-me a mim agora, como um dia me enganaste tu…com a tua pele, com o teu cheiro, com as tuas mãos que me protegiam de todas as outras coisas.
A tua voz intolerável demora-se no meu ouvido. Vejo-me de repente a apertar-te com toda a minha força fraca e a calá-la, a voz, para sempre. É uma ilusão repetida na minha mente vezes sem conta. É vergonhoso e cruel pensar assim. Mas não me dás outra escolha. Se me matas-te porque não tenho eu o direito de te matar de mim? Permite-me destruir essa tua redoma feia. Permite-me destruir-te a ti. Não o homem, mas o MEU homem. Permite-me destruir só o MEU, por favor.

domingo, 1 de Junho de 2008

1 de Junho

Um dia quis fazer de mim de novo uma criança. Mas era tarde de mais. O tempo cruel roubou-me esse meu próprio tempo de menina. Agora sou apenas uma mulher que se perderia entre lágrimas e bonecas velhas. Uma roseira brava cuja infância é eterna e nunca existiu.
Se me procurares nos sonhos estarei lá… a correr por entre os pessegueiros e os pés de salsa, sentindo a terra entrar por entre as sandálias abertas. Jamais me verás feliz. Trarei somente no rosto um sorriso disfarçado de quem só quer parar de crescer um bocadinho.
Permites-me ò carrasco do tempo?
Devolve-me a infância. A inocência de saber o tão pouco, que sei agora, era apenas o suficiente para puder sorrir.

Quero voltar a ser um anjo. Quero voltar a ser criança.

quinta-feira, 29 de Maio de 2008

A chuva de Maria

Lá estava ele outra vez em frente ao portão, dentro do carro branco. Trazia uma nova namorada, muito jovem e muito loira, que não combinava de todo com ele mas que exibia como se de um troféu se tratasse. Maria, do lado de dentro do portão, observava aquele estranho, muito quieta, agarrada a uma boneca de trapos. Esperava ganhar naquele momento uma súbita coragem que a fizesse fugir dali, pelo meio da chuva que caía insistentemente, até alcançar um sitio seguro. Mas os seus 5 anos de vida, plenos de medo daquele estranho mais do que qualquer outra coisa, só lhe permitiam o pânico sempre que ele vinha. De repente ouviu a sua mãe.
– Anda Maria. Tem de ser filha.
E a sua mobilidade acabava de ser quebrada. Num rompante, agarrou-se à cintura da mãe e implorou-lhe, chorando desalmadamente, que não a deixasse ir. E perante o silêncio da mãe e as lágrimas que também já brotavam nos olhos desta, Maria implorava ainda mais. E o estranho ria dentro do carro. Ria tanto! Ria sem sequer ver a menina que continuava a implorar enquanto a mãe de coração partido a arrastava até ao portão, até ao estranho.
– Por favor, mãezinha! Por favor, deixa-me ficar!
De repente, já só se ouviam os gritos da menina misturados com o riso do estranho. E tanto barulho, tanto medo… E subitamente os risos e os gritos são interrompidos pelo ruído ensurdecedor de um despertador.
Maria tacteou até o encontrar na mesinha de cabeceira. Desligou-o. Abriu os olhos e puxando para trás o cabelo que lhe cobria a testa suada, deu um grande suspiro de alívio. Afinal não passava de um sonho, pensou. A menina era agora uma mulher de vinte e poucos anos que não temia mais nada senão a miséria. Já não havia estranho, nem mãe que a escondesse deste. Estava sozinha no mundo.
O despertador mostrava 6h da manhã. Maria, contemplando as paredes plenas de humidade, procurava ganhar coragem para se levantar. A noite tinha sido longa. Sentia o corpo moído. Por um segundo quase voltou a adormecer. Mas a ânsia de mais um dia de luta não deixou que o sono a embalasse. Levantou-se rapidamente e correu para o chuveiro. Precisava de um bom banho. Que a lavasse da noite e a deixasse limpa para um novo dia. Ao sentir a água a cair-lhe pela testa, quase se via de novo no seu sonho. A água parecia afinal a chuva. Quase podia sentir o cheiro da chuva na terra. Quase voltava a gritar ouvindo as gargalhadas do estranho. O estranho que era afinal seu pai e que a abandonara antes mesmo de ela aprender a chamar por ele. Mas Maria não queria evocar o medo que acompanhava aquele sonho, por isso não prolongou o banho. Vestiu-se e saiu, carregando uma pilha de livros, um guarda-chuva velho e uma torrada que seria o seu pequeno-almoço. Lá fora, esperava-a um Inverno chuvoso e uma hora e meia de viagem que os transportes do Porto não facilitavam até á Faculdade De Medicina.
Desejava ser médica desde o dia em que a mãe lhe morrera nos braços com cancro. E o sonho estava prestes a ser cumprido. Faltavam-lhe dois meses para acabar o curso de pagava com o seu próprio corpo. Jamais se entregava a homem algum, mas dançava seminua, todas as noites, acompanhada apenas de um varão. Não tinha vergonha do que fazia para sustentar o seu futuro. Mas escondia dos amigos, dos poucos que tinha, por receio que não entendessem. Muitos não entenderiam concerteza. Só alguém com a vida de Maria poderia entender tamanho esforço.
Por vezes, depois de mais uma noite, recriminava-se pelo que fazia. E chegava mesmo a pedir perdão á mãe onde quer que ela estivesse. Mas achava que tinha direito a lutar pela vida. Que tinha o dever de superar o tempo em que a dificuldade reinava.
Desejava para si dois filhos, um casamento, uma casa amarela e um lavrador chamado James. Mas não permitia que nada disto chegasse antes de garantir que pelo menos fome nunca mais passaria. A fome a que o estranho do seu pai foi indiferente. A fome que a mãe tentou evitar tirando da própria boca para lhe dar a ela.
Chegada á Faculdade, Maria sentia-se em casa. Admirada por professores e colegas, além de uma aluna brilhante liderava também o Grupo de Teatro. No fundo, sentia-se realmente uma actriz, perfeita num papel que não escolheu. De dia a dedicada, de noite a devassa.
Por volta das 15h regressava a casa. A casa tão velha e húmida que de seu nada tinha. Ganhava cada vez mais a dançar, poderia já viver num bom apartamento. Mas em qualquer situação optava sempre por poupar, por não desperdiçar aquilo que um dia tanto lhe faltou, dinheiro. O maldito dinheiro que a movia, que a fazia abdicar de tanto!
Depois de algumas horas de descanso e da primeira refeição decente do dia, Maria transformava-se. As roupas largas davam lugar a enormes decotes e minúsculas saias que deixavam antever as pernas longas e o busto farto. A sua pele, sempre tão clara e limpa enchia-se de maquiagem. Soltava o cabelo loiro que lhe caía pelos ombros… E derrepente uma linda e exuberante mulher em frente ao espelho. Mais um toque de blush até reconhecer o carro de Carla a chegar, a sua mais fiel companheira. Com ela tinha aprendido tudo sobre o mundo da noite. A noite feia em que se insinuava e que fazia dela alguém que não reconhecia.
E eram assim as noites de Maria. Despidas de roupa e de preconceito. Plenas de fantasias oferecidas ao jovem solteiro, ao maduro casado ou simplesmente aqueles que faziam chover notas para a ver brilhar. E brilhava sim! Não conseguia roçar o sujo ou o vulgar. O seu mais discreto movimento irradiava sensualidade. E quanto menos pano trazia mais parecia ter a revelar.
Agarrava aquele varão frio como a sua própria vida. E tudo saía de dentro de si ali. Tudo lhe era permitido. A raiva do pai, a perda da mãe…Melhor ainda, a tristeza de ter abandonado um amor em troca de uma vida. Mais do que no pai ou na mãe, era neste que pensava enquanto dançava. Procurava encontrar, no meio de tantos olhares masculinos, o olhar que um dia lhe roubou a alma. O olhar daquele único a quem um dia se entregou, Miguel. Conhecido no tempo da miséria, deixado para fugir dessa mesma miséria.
O pai andaria perdido no mundo, entre mulheres, hotéis de luxo e champanhe. A mãe jamais voltaria. Mas e Miguel? Poderia ele voltar e perdoá-la? Poderia ela voltar a sentir aquele abraço que a protegia do mundo? A beija-lo debaixo da chuva? A ser tocada como se toca uma deusa? Não. Quem perdoaria alguém que abandona um amor daqueles? Ninguém. Nem a mais humilde das criaturas como era Miguel.
Conhecia bem o silêncio da pobreza, tal como Maria. Mas ao contrário dela, limitava-se a viver acomodado com o pouco que o destino lhe oferecia. Não pedia mais, não lutava por mais. Bastava-lhe para ser feliz o amor de Maria, dizia ele. E ela acabou por tirar-lhe o grande motivo da sua felicidade para dar a si mesma tudo o resto que pensava fazê-la feliz. Mas agora, depois de tantos anos, sabia que em nenhum momento tinha alcançado felicidade maior do que a vivida ao lado de Miguel. Sentia sim que tinha sido capaz de mudar o destino que um dia alguém lhe traçou. Felicidade? Nunca mais.
Miguel teria agora provavelmente outro amor, outro alguém capaz de se acomodar a uma vida sem grandes conquistas. Talvez estivesse até casado. Talvez não. Talvez já nem se lembrasse dela, mesmo tendo-lhe jurado que a ia amar até à morte. Promessas. Tantas promessas que o tempo se deve ter encarregado de apagar. Esse tempo atroz que tudo apagava, menos o rancor do pai e o rosto de anjo de Miguel.
E vivia assim Maria. Todos os dias iguais, todas as noites iguais. Todos os segundos de todos os anos direccionados para um só objectivo: ter uma vida sem medo, sem fome, sem dor. Ás tantas não sabia já pró que lutava. Se para a mãe, se contra o pai, se por si. Mas lutava incondicionalmente. Sempre. Até que um dia a sua luta perdeu o sentido.
Parecia mais uma noite como tantas outras. Muitas luzes, muito fumo, musica em altos berros. Homens que nasciam a cada esquina. E afinal Maria estava como sempre, sozinha com o seu varão. A música que endoidecia fazia-a como que voar á volta daquele pedaço de metal. Todos os olhares se voltavam para ela, mas ela não via ninguém. Todos os rostos lhe pareciam iguais, todos procuravam o mesmo, apenas diversão. Mas derrepente foi prendida por um olhar familiar. Um olhar frio que se disfarçava no meio de tantos outros, acompanhado de um copo de whisky. Teria cinquenta e muitos anos. Figura acabada, barba mal feita. Aos mãos enormes cobriam todo o copo que segurava.
Maria olhou-o nos olhos e tremeu. Subitamente sentia-se paralisada, invadida por um pânico que há muito escondera dentro de si. O barão já não estava mais ali, nem a música, nem as luzes. Já só se ouvia uma gargalhada distante que se repetia insistentemente. E uma menina que gritava:
- Por favor mãezinha! Por favor deixa-me ficar!
Logo percebeu. Mas não podia ser. Que fossem todos os homens do mundo. Mas ele não, pensava.
Derrepente o chão voltava de novo aos seus pés. A música voltava.
- Maria o que se passa? Estás doida?! Continua a dançar! – Gritava-lhe um barman.
Mas não foi capaz. Desatou a correr com os tacões que pareciam mais pesados do que nunca ate á salinha onde normalmente se vestia com as outras. Por sorte estava vazia, mas logo que se fechou lá dentro ouviu gente bater á porta.
Não reagiu. Como reagir? O homem a quem atribuía todas as suas desgraças e misérias estava ali à sua frente, à um minuto atrás. O seu pai. Como era possível? Como? Tela-ia reconhecido?
Sem pensar mais um segundo, vestiu um fato de treino que trazia sempre para voltar a casa e calçou uns ténis velhos que alguém teria deixado por ali. Tinha de sair dali imediatamente. Fugir daquele pânico que a corroía.
Abriu a porta e percorreu o bar até á saída ignorando todas as vozes que chamavam por ela. Cá fora, o céu negro prometia chuva brevemente. Maria só desejava sumir no meio dela. Contraiu a primeira esquina, mas logo recuou uns passos para trás. Viu-o de novo. Apagava um cigarro com o sapato e preparava-se para entrar num carro vermelho. Uma lata velha que parecia não querer arrancar.
Mas onde estava a sua vaidade? Onde estava o seu carro extravagante, a mulheraça ao lado? Nada disso existia mais. Era agora apenas um velho miserável sem dinheiro para ostentar e consequentemente sem mais nada. Provavelmente procuraria naquele bar aquilo que um dia tanto lhe sobrou a agora não teria, uma mulher.
Depois de alguns segundos que pareciam intermináveis, o carro acabou por pegar. Maria deu um suspiro de alívio. Dentro de si algo lhe dizia que jamais voltaria a vê-lo. O medo acabava ali.
A chuva começava a cair. Finalmente, pensava Maria. Fazia com que se sentisse limpa. A sua alma sentia-se limpa.
Durante horas e horas percorreu as ruas da Ribeira. Sem dizer uma palavra, sem deixar que um milésimo de segundo de um qualquer pensamento se apoderasse de si. As gotas da chuva grossa percorriam todo o seu corpo já enregelado e iam levando com elas a pesada maquiagem. Por alguma razão Maria não queria voltar a casa. Vagueou durante algum tempo até chegar a uma das margens do rio Douro onde tantas vezes Miguel a tinha levado. Sentada na areia viu a chuva abrandar. Olhou o rio durante horas. Trazia-lhe paz. A paz de Miguel.
Estava prestes a amanhecer e ela deitou-se sobre a areia. Acabou por adormecer. Adormeceu sobre aqueles grãos que tantas vezes a viram sorrir, que tantas vezes a ouviram sonhar no colo de Miguel. Acabou mesmo por sonhar com ele. Tanto que quase sentia a voz dele colada ao seu ouvido.
- Maria? És mesmo tu? Maria?
Abriu os olhos. Não podia acreditar no que via. Era um sonho que tinha terminado de forma real. Era Miguel.
- Diz-me que és mesmo tu Maria. – Repetia ele.
Ela levantou-se num rompante e abraçou-o como nunca na vida tinha abraçado alguém. – Sou mesmo eu, Miguel. – Disse-lhe.
- Nem acredito que te encontrei depois de tanto tempo! Tenho tanta coisa para te contar… mas o que estas a fazer aqui, assim? - Perguntava-lhe ele ainda incrédulo.
- Oh Miguel, não perguntes nada…Olha só para mim. Deixei-te em busca de outra vida e olha só para mim. Tu perdoas-me? Diz que me perdoas por favor…
Sem sequer pensar, Miguel tapou carinhosamente a boca de Maria com a sua mão e disse-lhe – Não tenho nada a perdoar-te. – sorriu - E não digas mais nada. Vem só comigo.
Maria ainda abriu a boca para lhe responder, mas antes que tivesse tempo de o fazer desfaleceu-lhe nos braços.
Acordou seis horas depois, numa cama enorme. Olhou á sua volta e não reconhecia de todo o quarto luxuoso onde estava. Derrepente, surge Miguel, com um enorme tabuleiro que parecia trazer um ainda mais enorme pequeno-almoço.
- Até que enfim Bela Adormecida!
Maria sorriu – Onde estamos? Como é que vim aqui parar?
Sentou-se na cama e servindo-lhe uma chávena de café, Miguel respondeu-lhe – Estamos no meu apartamento. E tu desmaiaste, provavelmente de cansaço. Que andaste a fazer pela noite fora miúda? – ao ver o ar fragilizado de Maria a sua expressão mudou – Esquece. Não digas nada. Toma o teu pequeno-almoço que a seguir tens uma banheira enorme á tua espera! – deu-lhe um beijo na face e dirigiu-se para a porta – Se precisares de mim estou na sala ao lado.
Maria assim fez. Tomou um pequeno-almoço longo com há muitos anos não fazia e de seguida tomou um banho mais longo ainda. A banheira era sem dúvida enorme. Tudo naquele quarto era enorme. Afinal o seu rapaz sem ambição era agora um homem seguro que já devia ter conseguido tanto! E melhor ainda, estava de volta, de volta para si.
Depois do banho, Maria enfiou um roupão e foi até á descomunal varanda espreitar. Assustou-se com a vista. Todo o rio Douro parecia aos seus pés. Como a vida estava agora aos seus pés. E sorriu, como há muito tempo não sorria.
Conseguiu finalmente desprender-se daquela paisagem estonteante e caminhou até à cama. Pegou no jornal. No momento em que leu a primeira página deixou-o cair no chão imediatamente. “ Acidente mortal vitima homem de 58 anos na Ribeira”, era o título. Na imagem, via-se aquilo que tinha sido um carro vermelho agora transformado num pedaço de sucata.
Maria ficou em choque. Sabia que jamais choraria uma lágrima por ele. Mas também não conseguia sentir-se aliviada. De olhos postos no jornal que estava ainda no chão, murmurou apenas: – Agora sim, acabou.
Derrepente Miguel, mesmo na hora certa, espreitou á porta.
- Então miúda, vais passar o dia no quarto?
Maria respondeu-lhe:
– Não. Estava só a preparar-me para finalmente te fazer feliz.

quinta-feira, 8 de Maio de 2008

Já vos aconteceu não ter nada para dizer e querer dizer tudo?

Frase sem nexo ok, mas hoje sinto-me assim. Não tenho nada de especial a dizer…mas no entanto, queria dizer algo, para marcar este dia. Queria só dizer que apesar de por vezes considerar a minha vida a mais desastrosa que paira sobre esta terra, hoje senti-me feliz tantas vezes…hoje passei por aqueles segundos em que senti que valia realmente a pena viver…Sorri com a mais pura vontade de sorrir! GRITEI, BRINQUEI, FIZ TOLICES E PALHAÇADAS COMO SE AINDA TIVESSE 12 ANOS….voltei por momentos aquele tempo que me roubaram…o tempo em que devia ser criança e não conseguia, o tempo que o meu carrasco consumiu e nunca mais devolveu. Começo finalmente agora a viver descontraída….e sabem que mais? É muito bom…

E se estas frases não vos fazem sentido, perdoem-me. Procuro apenas entender-me. E finalmente começo a conseguir.

segunda-feira, 5 de Maio de 2008

"nocivos"

" É triste não ter amigos? Ainda mais triste é não ter inimigos! Porque quem não tem inimigos é sinal que não tem: nem talento que faça sombra, nem carácter que impressione, nem coragem para que o temam, nem honra contra qual murmurem, nem bens que lhe cobicem, nem coisa alguma que invejem... ".

Há dias atrás, encontrei este pequeno texto algures nos recônditos da web, e senti-me de imediato revista nele.
É talvez estranho dizer isto, mas sempre me vi rodeada de inimigos. Não gosto muito de utilizar esta palavra, porque acho o seu significado abrangente demais. Mas nenhuma melhor me ocorre.
Depois de uma breve visita ao dicionário, encontrei alguns sinónimos mais…como dizer… que menos me soem á amante inimiga da novela das oito…Poderia então usar, para melhor apelidar os meus inimigos, os “adversários”, os “não amigos”, os “hostis”, ou até os “nocivos” (gosto desta!).
Bem, ainda mais estranho que dizer que sempre me vi rodeada de “nocivos”, é dizer que estes me fazem crescer! Sim, mesmo muito estranho. Verdadeiramente estranho.
Só há pouco aprendi a lidar com os meus “nocivos”. Por razões que não lembram agora, ou melhor, lembram, mas ocupariam demasiado espaço no meu cérebro, a verdade é que lido extraordinariamente mal, mas extraordinariamente mesmo, com a rejeição. É certo que ninguém lidará bem, penso eu, e se houver por aí alguém que o faça, por favor contacte-me imediatamente e dê-me instruções de como desdobrar aquele nó tão cego na garganta que aparece quando me sinto apagadamente rejeitada.
Na verdade, sou uma perita em exagerar. Mas unicamente quando me vejo perante os meus sentimentos, normalmente os ruins, ok, eu confesso. E aí vou suportando tudo, com muito jeitinho e muita choradeira também, mas a rejeição não.
Agora melhorei, como se tivesse descoberto uma vacina milagrosa. Não curou totalmente a doença, mas diminuiu em 70% os efeitos catastróficos. E adivinhem, melhorei graças a um monte de “nocivos” que surgiram na minha vida. Mas um monte mesmo, de uma vez só! Vieram, atropelaram-me….e pronto, quando dei por mim, estava realmente num crítico estado de rejeição, rejeitando-me até a mim mesma, atropelando-me e magoando-me ainda mais, como se isso me fizesse entender que tinha afinal eu de errado.
Hoje sei, não tenho nada. Sou apenas dramática demais, principalmente naquelas ocasiões especialmente erradas. Porque se me rejeitam a 50, eu auto-rejeito-me depois a 100%.
Agora já me perdi, e já não sei se este texto é sobre os “nocivos”, ou sobre os meus problemas existenciais. Será certamente sobre a ligação dos dois.
Pois aqueles tais nocivos que me derrubaram um dia, continuam a fazer parte da minha vida. Não são agora de todo “nocivos”, pelo contrário. São já pessoas a quem sorrio e agradeço todos os dias (assim muito baixinho) por um dia não terem gostado muito de mim.FIZERAM-ME CRESCER! Deram-me o gozo de conhecer a derradeira rejeição, de a superar e de depois a transformar obrigatoriamente numa relação de cumplicidade.
Com eles aprendi que os inimigos são saudáveis!!! Ajudam a controlar tanto sentimento estranho…ajudam a aprender a dar luta, a conquistar…ajudam a que uma simples palavra cordial valha tanto, tanto esforço! Ajudam a que te sintas mal quando estás por baixo, mas depois que te sintas como nunca, quando estás no topo!


Por isso a todos os meus “nocivos”

Obrigada!

quinta-feira, 24 de Abril de 2008



quinta-feira, 3 de Abril de 2008

Faltam-me as palavras. Pura e simplesmente faltam-me. Porque há tanto barulho misturado com tanto silêncio,porque há tanta angústia misturada com tanta paz...porque a tua ausência se mistura com a tua presença. E vejam, já nada faz sentido. O que te dei não faz sentido..(não fará mesmo?)..O que me deste não faz sentido...(e agora?)...onde estão os suspiros?as lágrimas?a paixão endoidecida?o calor?o calor que nos consumia a alma....o cheiro, a pele,o toque....o teu veneno...acordaste-me com o teu veneno...vês? agora jamais adormecerei.

sábado, 22 de Março de 2008

A Ana Alexandra Ribeiro Nogueira:

Há muito tempo que penso dedicar-te umas palavras. Tu bem conheces a minha mania de me servir das palavras para tudo! Mas sendo para ti, como é difícil começar. Nenhuma introdução fica perfeita, nenhuma conclusão termina exactamente como queria…nada revela realmente aquilo que eu te queria transmitir. Nada, nenhuma palavra, nenhuma frase feita chega realmente à perfeição da tua amizade.
Mas tenho de te dizer algo, tenho desesperadamente de dizer. Porque vivemos neste mundo doido em que só damos valor ás pessoas depois de as perdermos…e eu por vezes tenho tanto, tanto medo de te perder sem ter tempo de dizer o quanto és importante . Por isso é melhor começar já, antes que o destino, aquele cruel que conhecemos tão bem, nos pregue mais uma partida. Então, mesmo que a introdução não fique perfeita e a conclusão não termine exactamente como eu queria, fico apenas á espera que cada sílaba deste texto te mostre o quanto és essencial na minha existência.
Acredites ou não (e eu digo isto mas sei que acreditas incondicionalmente), agora que já não te vejo todos os dias na escola, agora que já não rimos juntas daquela falsidade tão bem dissimulada que juntas aprendemos a combater, agora que já não te tenho em todos os intervalos a amparar os meus passos, adoro-te ainda mais. Ok, estás com vontade de me bater agora, eu sei! Mas é a pura verdade…e eu não seria eu própria se não te confessasse isto. Quantas vezes nos intervalos, me encosto a um canto, o mais isolada possível, e fico á espera que alguém dê pela minha falta. 10 Minutos depois toca. E ninguém veio, tu não vieste. E aí, de lágrimas nos olhos eu só penso – “Quem me dera ter rido mais contigo, ter brincado mais, ter-te ajudado mais, ter-te ouvido mais… Quem me dera ter feito mais um bocadinho de tudo contigo, sem deixar espaço sequer par um segundo de silêncio ao teu lado.”
Oh minha irmã, como te agradeço estes cinco anos de dedicação? Provavelmente não agradeço. Não há forma possível de agradecer. Tentarei simplesmente acompanhar-te sempre, enquanto Lhe vou agradecendo a Ele, todos os dias. A Ele que parece ás vezes tão cego e tão esquecido, mas que afinal me mandou alguém para diminuir o peso do meu fardo: TU. Que conheces o meu melhor e o meu pior. Que assistes paciente á minha teimosia, ás minhas birras, aos meus desgostos amorosos, aos meus ataques de auto-exclusão, ao meu mau humor, á minha incrível necessidade de atenção… Tu que suportas tudo aquilo que tenho de mau, como se bom se tratasse. E depois, vens para perto de mim e minimizas tudo. E transformas aquele problema que parecia a 3ª Guerra Mundial na minha cabeça num problemazinho insignificante tão fácil de resolver. Até na tua casa encontro ás vezes mais paz que na minha própria casa.
Então agora diz-me minha irmã, e eu? Será que eu mereço ter-te na minha vida? Sera que eu retribuo o teu apoio incondicional? Tenho a certeza que me responderias a isto com um sorridente “claro que sim!”. Mas eu bem sei que não. Tens de mim todo o apoio e toda uma lealdade inquestionável. Mas eu bem sei, nem sempre te ouço tanto quanto devia, nem sempre te dou a atenção que mereces. Passo tanto tempo a tentar mostrar-te como os meus problemas são gigantescos e indestrutíveis, que nem me deixo ouvir os teus, sempre tão discretos. E tu nem te importas não é? Nunca te importas.
- “Fala…nem que seja da colcha do teu quarto…nem que eu não perceba nada…não fales só para eu perceber, fala só para ficares aliviada.” - Lembras-te quando me disseste isto? Eu estava em mais uma das minhas crises, sem querer falar com ninguém, a esconder-me do mundo, o habitual. E depois destas tuas palavras (mágicas não é?), deitei tudo cá pra fora, e o grande problema lá se foi. Mas as tuas palavras ficaram até hoje. E quero que permaneçam comigo sempre. Porque mesmo sem esse propósito, definiste subtilmente com estas palavras o ser humano lindo que és e aquilo que tens a oferecer-me. E acredita, tem sido tanto! És a minha prova de que afinal não estou sozinha, és a minha excepção quando todos me viram as costas, és o único exemplo possível de ser apresentado quando penso que não há ninguém neste mundo que entenda aquilo que sou.
Sou pouco? Sou muito? Não sei. Mas sou-o melhor porque te tenho ao meu lado.

[OBRIGADO POR TERES A CORAGEM DE ME TIRAR A MÁSCARA.]
Amo-te

quinta-feira, 20 de Março de 2008

Dia do pai

Felizmente dia 20 de Março. Felizmente mais um 19 de Março que passou, mais um dia do Pai que passou.
As reportagens na televisão, as lojas decoradas, os amigos que se intrigam sobre o que oferecer ao pai....E eu? O que poderá representar para mim este dia se não me lembro de em nenhum segundo da minha vida ter chamado alguém de pai?
Lembro-me sim, de na 3ª classe fazer desenhos e prendinhas, “para oferecer ao pai”, e depois levá-las para casa e não ter a quem dar. Lembro-me sim, de no 5º ano inventar aos colegas as prendas que o pai me dava pelo Natal, pelo aniversário.
Tive vergonha de mim durante anos, por não ter um pai, ou simplesmente ter um que não me quis. Hoje, tenho orgulho. Orgulho em ser aquilo que sou. E mesmo que seja muito pouco, sou á minha custa.
Tão longe de mim, “ensinaste-me” o que é a fome, o que é o querer e não ter, o que é o mentir por vergonha. E mais importante que isso, “ensinaste-me” o ideal a dar aos filhos que um dia eide ter. É simples, para fazê-los feliz basta ser o contrário de tudo o que tu és.

segunda-feira, 17 de Março de 2008

Chuva "molha-tolos"

Primeiro dia de férias.Viva ao descanso!Serão duas semanas, que logo parecerão um dia só, para descansar...arrumar as ideias.
O tempo não melhora. Lá fora chove.Aquela chuva chata, miúda,a chuva "molha-tolos", como dizia um meu antigo professor de geografia. À dias que esta chuva persiste. Provavelmente irá estragar os meus planos de férias...mas de repente penso-"ok...a chuva é necessária,lava as plantas, lava a terra..e etc...mas e eu?porque é que a chuva não me lava tambéma mim?porque não lava a minha alma?"...
Pensamento estranho não?É verdade,como a maior parte dos que me caracterizam, é verdade. Ouço tantas vezes dizer-" Pensas de uma forma tão estranha!"ou "Alguém da tua idade não pensa assim!!!"...Acham que isto me importa??Acham que preciso de me sentir igual para me sentir feliz?jamais!o pouco que me faz feliz é saber que sou diferente!não necessito necessariamente de dizer "sou extremamente diferente, pela positiva". Não. Faz-me simplesmente feliz dizer "SOU DIFERENTE". Não quero saber se sou diferente para melhor ou pior. Podem até dizer que sou doida, e ás vezes duvido se não o serei mesmo!Mas sou como sou,tenho 18 anos, e quem foi o idiota que ditou que aos 18 anos temos de andar na faculdade e pensar em tirar a carta?Melhor, quem foram os primeiros idiotas que deixaram que a sociedade fizesse deles aquilo que seria o supostamente correcto?
Eu gostava que a chuva me lavasse sim.Que me lavasse a alma.Que me tirasse a impureza dos meus pensamentos como tira as impurezas da terra....que me levasse o meu passado, como leva um corpo morto ou uma flor murcha ou uma erva daninha...
Será que posso simplesmente sair lá fora e deixar-me lavar?Será que vão chamar-me maluca?Será?Óptimo,começou a chover.

domingo, 16 de Março de 2008

Diferente ou diferença?

Foi no mês passado, numa reportagem da SIC, que me deparei com a história de Paulo Azevedo. Nasceu em Outubro de 1981, em Coimbra, sem mãos nem pernas. As expectativas dos médicos apontavam para que nunca conseguisse andar, quanto menos usar próteses. Hoje, com 26 anos, Paulo não só anda, como escreve, conduz, fuma, namora, pratica natação, foi treinador de futebol, frequentou a Universidade de Jornalismo e actualmente a Universidade Lusíada num curso de representação.
Depois de 40 minutos colada ao sofá, impávida e serena, desvendando a cada minuto esta vida impressionante, enquanto a minha mãe repetia um sem numero de vezes a palavra “coitadinho”, levantei-me, fui até a uma estante da sala, e peguei num dicionário velho. Procurava o significado da palavra “diferença”. E encontrei: - “ qualidade de diferente; dissemelhança; desigualdade; disparidade; desconformidade; transformação; alteração; mudança; prejuízo; transtorno “.
Durante a reportagem, a palavra diferença tinha sido repetida demasiadas vezes. Mas os sinónimos desta que encontrei no dicionário em nada caracterizavam o Paulo. Pelo contrário, foi eu que me senti caracterizada. EU senti-me diferente. Senti que talvez, eu e os auto-intitulados “normais” como eu, é que somos diferentes. O Paulo encara o seu corpo como a coisa mais normal do mundo. Eu passo horas em frente ao espelho a por defeitos no meu! O Paulo encara todas as adversidades vindas da sua condição como simples desafios. A tia Margarida anda meses traumatizada quando lhe aparece uma ruga! O Paulo sonha em protagonizar um papel de vilão depois de acabar o curso. A prima Sónia sonha em ser tão bonita como a não-sei-quantos dos Morangos com Açúcar!
Quem é diferente aqui? O Paulo já nasceu acordado para o que realmente é ser diferente. Nós, os “normais”, quando acordaremos?
Depois de conhecida esta história, quantas opiniões sobre Paulo não terão surgido neste Portugal fora, sempre tão retardado. Um castigo Divino para uma mãe que engravidou aos 16 anos no liceu? Uma tragédia que teria sido evitada se na década de 80 houvessem ecografias? Um erro da natureza? Não. O Paulo é a prova da Natureza, ou de Deus para os mais católicos, que para alcançar aquilo que realmente é importante não são precisas mãos, nem pés. Não é facto de se ser diferente que nos impede de fazer algo. Pelo contrário, para que façamos algo com grandeza é necessário também fazê-lo com diferença. E o Paulo não é diferente, faz simplesmente a diferença.